Gazua#946

ADRIANO MOTTA
ALEXANDRE COLCHETE
OLIVER BULAS
PEDRO VICTOR BRANDÃO
ZÉ CARLOS GARCIA

 

31.03.2017

Gazua #946

Não, não estou procurando nada –  respondeu o desconhecido a um Hannigan ainda sôfrego da escavação no terreno movediço da baixada.  – Bom, se você está perdido, não encontrará nada aqui nesta praia, senão eu e este cachorro morto.

Perfurando a fina camada macerada ao longo de séculos por um brutalismo construtivo e natural, e debatendo-se agora contra raízes e pedras, Hannigan reencontrou uma espécie de interlocução, sem que a proferisse. Não há mais o que dormir. Não vemos o que vê o homem perfurador. Seus ouvidos têm conchas que isolam tímpanos e as imagens escondem-se lá. “Todo curador de cobra é curado, nem todo curado é curador de cobra.” Minutos antes essa frase ecoou sincopadamente a cada golpe de Hannigan no solo, palavras que foram ditas outrora por um desconhecido, em um encontro muito semelhante a esse, não muito longe desse mesmo ponto.

– Não quero criar problemas e sinto pelo seu cão.  Posso lhe ajudar a enterrá-lo. Não sabia que haviam praias particulares por esta região – disse-lhe o estranho.

Hannigan imediatamente pensou em um buraco grande o suficiente para um homem, e a tresvariada ideia de ceder-lhe a pá, sua única forma de defesa naquele…

 

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Gazua VIP Colectors Edition Ouro Page 1 (VIPCEOP)1

Hannigan tinha acabado de cavar o túmulo, na baixada de um terreno pantanoso, onde um fio de água salgada fluia em direção ao Pacifico, quando a sombra negra de um homem surgiu no nevoeiro. Assustado, Hannigan ergueu a pá como uma arma, acima dos ombros. O outro homem havia se materializado a menos de 20 jardas de distância vindo da direção da praia e havia parado no momento em que avistou Hannigan. A luz difusa proveniente da lanterna de Hannigan não conseguiu atingir o homem: ele era apenas uma silhueta negra contra as ondas farfalhantes de névoa. Atras dele as ondas do mar açoitavam a praia escondida, num ritmo incessante. Hannigan disse: Pelos infernos, quem é você? O homem permaneceu olhando para baixo, as peças enroladas pelo pano junto aos pés de Hannigan ao lado do buraco cavado na terra arenosa. Parecia equilibrar-se firme nos pés, o corpo ereto, como que preparado para dar um salto a qualquer instante: - Faço-lhe a mesma pergunta - disse ele em voz tensa e firme. - Acontece que moro aqui - disse Hannigan fazendo um gesto com a pá para a esquerda, onde um raio pouco luminoso varava o nevoeiro. - Esta é uma praia particular. - Cemitério particular também? - Meu cão morreu esta tarde. Não quero deixá-lo rolando em torno da casa. - Deve ter sido um daqueles grandes, hein? — Ele era um „Grande Dinamarquês“ - disse Hannigan, esfregando o suor com a mao livre.- Voce deseja alguma coisa ou está...
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